[01] Bad parte 2



Vou dividir em 2 partes.
I) A bad veio profunda depois que terminei o diálogo Filebo. Eu já tava mal, mas piorou. Filebo é o diálogo "sobre o prazer", mas a parte legal dos diálogos não é o conteúdo: são as técnicas que Sócrates vai ensinar enquanto raciocina. Nesse, uma das principais é que entre a Ideia (o Bem, a Virtude, a Sabedoria) e os casos concretos, ou entre o Um e o Múltiplo, ou entre, por exemplo, o Conhecimento e, imaginem, uma pilha de milhares de livros desordenados, é preciso criar categorias intermediárias. Analogamente, é o que os sofistas faziam, como no Mênon, "os tipos de virtude", ou como temos hoje "os tipos de inteligência", "os tipos de amor" etc.. É ainda equivalente a criar categorias de catalogação de uma biblioteca: fica infinitamente mais fácil mediar o múltiplo (os vários livros) pra chegar ao Um (o "Conhecimento").
Esse diálogo resolveu umas tretas minhas, mas gerou uma mais pesada. A grande questão da gente é a captação do Um. É entender o que é Amor, não seus 4 tipos, ou se abrir ao Conhecimento, à Sabedoria, à Deus, em suma, ao Um, que está presente nos múltiplos. Essa é a treta das tretas; no fundo não é difícil chegar a ela, e a gente "vive nela", apesar de ter como se tornar mais consciente. E essa é a função da filosofia. Na religião é Deus à procura do homem. Na filosofia é o homem à procura de Deus.
.
II) Olavo sempre fala que os grandes filósofos acertam no conjunto e erram em detalhes, e a característica dos modernos é acertar em partes, e fazer cagada no conjunto. É porque, em geral, a gente perdeu uma habilidade, essa habilidade fundamental, absurdamente importante.
Olavo tenta aproximar a gente dela. É no necrológio, tentando dar uma ordem à sua vida; é no estudo de um autor por vez, pra tentar captar a "Unidade do Pensamento" do autor; o exercício de leitura lenta da aula 10 também serve pra isso, aprofundando os sentidos das frases e conectando-os para manter a coerência na leitura (já que é pra ler pouco por dia) etc..
A habilidade de captar o Um, de captar a Unidade. I) A Unidade de um livro, II) a Unidade de um autor, III) a Unidade de um assunto, IV) a Unidade de uma cidade, de uma cultura, V) a Unidade da sua vida. Fora dessa percepção, os dados são sempre soltos, e perdem boa parte do seu valor.
Nós fazemos cursos na universidade, que separam uma fração do conhecimento como se fosse autônoma das demais, e nos acostuma a obedecer ao "curso", ao "fluxo": não pensamos no sentido da disciplina, na relação dela com as demais, na diferença que ela tem quando é tratada por outro professor, na relação da área com outras áreas, no que é uma universidade em relação ao conhecimento, em relação à sociedade, à cultura etc.. Também não conhecemos nossa cultura, nem o que ela produz: ninguém nos ensina essas coisas, ninguém tem domínio dessas coisas.
Ultimamente tenho andado pela universidade. E pela 1ª vez percebi que há uma divisão do trabalho: cada curso só enxerga seu aspecto, idem os funcionários, cada qual no seu quadrado, e a ideia de sair desse quadrado, conhecer os outros e tentar entender a direção da academia como um todo é algo impensável, impraticável. Também a cultura, também a sociedade.
Vivemos às cegas, completamente confiantes numa "ordem" que nos transcende, a qual não conhecemos, nunca procuramos conhecer, mas que implicitamente confiamos que "é boa" ou que "vai dar tudo certo no fim". O preço dessa passividade é o sumiço da habilidade de perceber unidades.

Mas quem, afinal, tem interesse em procurar essa coisas? 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

[07] Unidade de uma consciência