[07] Unidade de uma consciência



a) Uma coisa é te darem palavras soltas sem dizer de que língua são (pode ser de 1, de 2, de 20), outra é você "aprender um idioma". Um idioma pressupõe uma unidade, em que todas as partes aprendidas se colam umas as outras. Pode ser a língua de desenhos animados, ou a língua clássica do século XVI, todas circulam dentro desse mesmo conjunto e, assim, se complementam mutuamente.

b) Do mesmo modo não se aprende a profissão de físico ou químico ou programador lendo só os livros, porque falta o princípio que "cola" as coisas. Ainda que você, com muito tempo, disposição e memória, se propusesse a ler todos os livros da grade de um desses cursos, sairia de lá como o François Gouin, um famoso linguista que memorizou um dicionário de palavras de alemão e ao ir pra Alemanha percebeu que foi totalmente inútil. Ele tinha de fato memorizado as palavras, tinha o princípio de cola, mas faltava talvez um segundo princípio, complementar ao primeiro, que é a cola da língua real, não da sua versão fragmentada.
c) Em (a) é uma unidade, em (b) é uma unidade viva.
d) É assim que a gente tem que pegar um filósofo. Uma coisa é tomar suas ideias de forma solta (a), como quem pega frases ou pensamentos do Olavo sem, muitas vezes, nem saber que vem dele. Uma segunda coisa é aprender essas ideias, mas sem perceber esse princípio de unidade viva - essa é mais difícil de notar. A distinção desse princípio se dá no processo de tentar entender COMO Olavo via o mundo, desde seu centro, isto é, não como nós achamos que ele devia ver, mas tomando seu material como um meio de nos comunicarmos com esse centro e tentar achá-lo. É tomando as ideias dele como coerentes entre si - ainda que a princípio não pareçam. Quanto mais nos aproximamos desse "princípio de unidade" (que no fundo todos temos, mas quanto menos consciente ele é, menos liberdade temos de definir como o queremos), mais suas ideias fazem sentido.
Lembro sempre da máxima de Rosenstock-Huessy em Origem da Linguagem: 1000 provérbios são menos útieis do que entender a ordem da cultura de onde eles provêm. É que essas 1000 ideias nasceram e se explicam dentro desse conjunto, e dele extraem o seu valor universal. Do mesmo modo, com cada filósofo, mas sobretudo o primeiro que nos formou (no caso Olavo) é preciso fazer esse exercício. É esse exercício mais importante do que aprender as ideias do Olavo: é melhor usá-las como intermédio para chegar a esse centro do que em si mesmas.

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