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Mostrando postagens de junho, 2022

[07] Unidade de uma consciência

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a) Uma coisa é te darem palavras soltas sem dizer de que língua são (pode ser de 1, de 2, de 20), outra é você "aprender um idioma". Um idioma pressupõe uma unidade, em que todas as partes aprendidas se colam umas as outras. Pode ser a língua de desenhos animados, ou a língua clássica do século XVI, todas circulam dentro desse mesmo conjunto e, assim, se complementam mutuamente. b) Do mesmo modo não se aprende a profissão de físico ou químico ou programador lendo só os livros, porque falta o princípio que "cola" as coisas. Ainda que você, com muito tempo, disposição e memória, se propusesse a ler todos os livros da grade de um desses cursos, sairia de lá como o François Gouin, um famoso linguista que memorizou um dicionário de palavras de alemão e ao ir pra Alemanha percebeu que foi totalmente inútil. Ele tinha de fato memorizado as palavras, tinha o princípio de cola, mas faltava talvez um segundo princípio, complementar ao primeiro, que é a cola da língua real, n...

[06] Coração

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[06] Existe um fenômeno, que eu considero o mais importante de todos até agora, que eu uso o nome de "Coração". Não tá bem organizado ainda, mas eu queria comentar algumas coisas sobre isso. a) Quando Otelo enlouquece ao ser convencido de que sua esposa amada o traiu, nada do que possa ser dito, mesmo que seja verdade, será levado em conta. As paixões humanas (ou os 7 pecados) tapam a nossa capacidade de processar o que vem de fora, e julgamos a partir desse sentimento. É facílimo cair nisso. a2) Por exemplo: um ateu que vá ler a Bíblia, no mais das vezes ele está lendo como alguém que não aguenta mais seu ambiente religioso e quer achar motivos para atacá-lo, ou se defender (de seus pais, por exemplo). Não interessa a verdade ou mentira, as possibilidades de significado, tudo o que se possa extrair de útil do texto: tudo o que passar diante de seus olhos tem esse filtro. O oposto também ocorre. a3) "Filtro" pode ser de outros modos menos diretamente sentimentais. Q...

[05] Um pitaco sobre estudos

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Este aqui é derivado diretamente do [04]. a) Quando for estudar um texto, como I) as 12 camadas da personalidade ou II) as 6 doenças do espírito contemporâneo ou III) os 4 discursos, esqueça o texto e foque nos objetos de que ele fala. Como apoio, eu acho útil prestar atenção se o conceito é vertical ou horizontal: assim, I é vertical, II e III é horizontal. Em seguida o objeto de que trata: as 12 camadas é de gente; as 6 doenças é mais do que gente, mas gente pode ser usada; os 4 discursos é "texto". a1) Você esquece os conceitos e vai mexer nesses objetos. Os conceitos estão aí mais como uma inspiração geral, vertical ou horizontal. Mas essa parte, a da >>coleta de informações<< é mais importante do que o próprio texto. Memorizar as 12 camadas da personalidade é como ter um conjunto de taças chiques, mas vazias, e não ter nada para tomar. Por outro lado, coletar "muita fofoca" (narrativas sobre pessoas) por si só, é como ter um grande barril de água, m...

[03] Palavras e Ordem.

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a) Já pararam para perceber, das coisas a sua volta, quais você NÃO sabe o nome? Vez por outra me ocorre como uma angústia, mas ontem veio de um modo novo. a1) Eu lembrei de Olavo falando, citando o gênesis, do Adão que sai nomeando as coisas. "Nomear as coisas" é 1) distinguir sua individualidade (e espécie), 2) encaixá-la numa ordem de significado. No sentido forte da palavra linguagem que Rosenstock-Huessy organiza. a2) Assim, vejam comigo: as palavras que você não sabe - quais seriam? nomes de plantas? nomes de carros? nomes de pessoas? nomes de animais? nomes de objetos? - implicam aquilo que NÃO esteve presente na sua formação cultural. Uma costureira vai saber vários nomes de tipos de roupa, de tecido, de - vejam só - o modo como a linha se prega na roupa, coisa que uma pessoa não-costureira ou não interessada em roupas (homens?) jamais prestarão atenção sequer que existe. Do mesmo modo: I) alguém que conhece muito de carros (em geral um sub-grupo de homens), II) algué...

[04] Horizontalidade e Verticalidade

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  [03] Horizontalidade e Verticalidade a) A gente vive imerso em trocentos conceitos que são falados o tempo inteiro. Os 4 temperamentos, os 12 signos, os 16 tipos de personalidade, as 6 doenças do espírito contemporâneo etc.. Se são palavras diferentes, é porque vieram de contextos diferentes e revelam aspectos diferentes, mas uma coisa é comum a todos eles: a horizontalidade. A gente acaba tendo mais fetiche em achar a "categoria exata" em cada um deles do que meditar no fator de horizontalidade. a1) Horizontalidade significa que nas várias categorias não há diferença de valor: ser de leão não é melhor do que ser de escorpião; ser atodécico não é melhor do que ser horetítico; ser melancólico não é pior do que ser sanguíneo: são só categorias diferentes. b) Mas não existe só isso. Tem ainda duas categorias conceituais: verticalidade e "concentricidade"/profundidade. Da última deixemos pra outra hora. A verticalidade, por sua vez, implica em diferença de valor. Assi...

[02] cultura fragmentada

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a) Fico meio puto quando falam de cultura ou filosofia ou universidade, porque falam como se nada estivesse sendo produzido, como se nada ocorresse. Mas ocorre: existem: I) academias literárias, panelinhas de escritores, os institutos históricos locais, editoras de produção de materiais locais, ... existe: II) a produção de monografias, dissertações e teses, revistas acadêmicas, eventos... existe: III) as instituições culturais (ANPUH, ABIN, SBPC, e mais umas 200), cada qual com revistas de artigos (e quem quiser pode submeter material a eles, ou acessar), e a grande maioria desse conteúdo todo está online e de graça. Tudo isso existe, e isso significa que há produção, há dinâmica, há ideias acontecendo. b) O que NÃO há, e aí até onde sei não há nem no meio olavette, é o mapeamento disso. Em outras palavras: informações são produzidas, mas na forma de um monólogo, porque ninguém leu o outro, nem sequer procurou saber que existe ou o que faz. Assim também, não tendo uma imagem do quadro...

[01] Bad parte 2

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Vou dividir em 2 partes. I) A bad veio profunda depois que terminei o diálogo Filebo. Eu já tava mal, mas piorou. Filebo é o diálogo "sobre o prazer", mas a parte legal dos diálogos não é o conteúdo: são as técnicas que Sócrates vai ensinar enquanto raciocina. Nesse, uma das principais é que entre a Ideia (o Bem, a Virtude, a Sabedoria) e os casos concretos, ou entre o Um e o Múltiplo, ou entre, por exemplo, o Conhecimento e, imaginem, uma pilha de milhares de livros desordenados, é preciso criar categorias intermediárias. Analogamente, é o que os sofistas faziam, como no Mênon, "os tipos de virtude", ou como temos hoje "os tipos de inteligência", "os tipos de amor" etc.. É ainda equivalente a criar categorias de catalogação de uma biblioteca: fica infinitamente mais fácil mediar o múltiplo (os vários livros) pra chegar ao Um (o "Conhecimento"). Esse diálogo resolveu umas tretas minhas, mas gerou uma mais pesada. A grande questão da gen...

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 Vou ficar postando aqui também, só porque sim.