[03] Palavras e Ordem.



a) Já pararam para perceber, das coisas a sua volta, quais você NÃO sabe o nome? Vez por outra me ocorre como uma angústia, mas ontem veio de um modo novo.

a1) Eu lembrei de Olavo falando, citando o gênesis, do Adão que sai nomeando as coisas. "Nomear as coisas" é 1) distinguir sua individualidade (e espécie), 2) encaixá-la numa ordem de significado. No sentido forte da palavra linguagem que Rosenstock-Huessy organiza.
a2) Assim, vejam comigo: as palavras que você não sabe - quais seriam? nomes de plantas? nomes de carros? nomes de pessoas? nomes de animais? nomes de objetos? - implicam aquilo que NÃO esteve presente na sua formação cultural. Uma costureira vai saber vários nomes de tipos de roupa, de tecido, de - vejam só - o modo como a linha se prega na roupa, coisa que uma pessoa não-costureira ou não interessada em roupas (homens?) jamais prestarão atenção sequer que existe. Do mesmo modo: I) alguém que conhece muito de carros (em geral um sub-grupo de homens), II) alguém que conhece o nome dos jogadores dos times de futebol, III) alguém que conhece o nome dos autores da sua cidade, IV) alguém que conhece o nome das obras musicais mais importantes, e assim sucessivamente, V) alguém que sabe reconhecer as situações humanas (o "amigo-psicólogo" em oposição a um homem prático que nunca preste atenção a nada disso).
b) Individualmente, notar os nomes que você conhece e os que não conhece permite ter uma imagem do que sua cultura te trouxe e do que ela não trouxe. A gente tem aquela vaga ilusão de que nossa formação é homogênea, e, pela falta desse tipo de meditação, pode-se até chegar a pensar que "todo mundo conhece as mesmas coisas", mas não é o caso. Existem sucessões de filtros.
b1) O mais básico é a língua. Você aprendeu um conjunto de palavras dentro de um idioma, e não de outro. E isso determina já bastante coisa. Você pode depois buscar outras línguas, e isso também determina bastante coisa.
c) Assim também perceber os nomes te permite fazer uma avaliação: I) da sua cultura (os ambientes que você frequentou, o que tem e o que não tem), II) do outro, por comparação, III) do que NÃO está presente na cultura.
c1) É só vendo o que NÃO está presente que se pode perceber, por exemplo, a tragicidade da nossa condição. Até onde vejo, não é que pessoas sejam más em si, ou que queiram fazer más escolhas: muitas vezes é porque as ideias disponíveis, os modos de agir e, enfim, tudo aquilo que vem da cultura - e no homem isso equivale a quase todas as suas ações possíveis - é deficiente. Dentre 2 opções ruins, a pessoa escolhe a menos pior, mas o que ela não tem como adivinhar é que existiam ainda 10 outras opções, das quais 5 eram muito melhores, 4 bem piores, 1 era "divinamente boa".
c2) Pra ter uma ideia do que significa "não dá para adivinhar", volte de novo ao exercício de perceber as palavras que não conhece.

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