[06] Coração
[06] Existe um fenômeno, que eu considero o mais importante de todos até agora, que eu uso o nome de "Coração". Não tá bem organizado ainda, mas eu queria comentar algumas coisas sobre isso.
a) Quando Otelo enlouquece ao ser convencido de que sua esposa amada o traiu, nada do que possa ser dito, mesmo que seja verdade, será levado em conta. As paixões humanas (ou os 7 pecados) tapam a nossa capacidade de processar o que vem de fora, e julgamos a partir desse sentimento. É facílimo cair nisso.
a2) Por exemplo: um ateu que vá ler a Bíblia, no mais das vezes ele está lendo como alguém que não aguenta mais seu ambiente religioso e quer achar motivos para atacá-lo, ou se defender (de seus pais, por exemplo). Não interessa a verdade ou mentira, as possibilidades de significado, tudo o que se possa extrair de útil do texto: tudo o que passar diante de seus olhos tem esse filtro. O oposto também ocorre.
a3) "Filtro" pode ser de outros modos menos diretamente sentimentais. Quando um acadêmico lê um texto ele nunca lê pelo texto em si mesmo, tanto é que no mais das vezes só lemos pedacinhos do texto, direcionados. O que se lê no texto é o critério dado ou pelo professor, ou pela pesquisa acadêmica, e tudo o mais que ele possa dizer não nos interessa. Se trocarmos em miúdos, ainda aí entra a emoção: lemos pelo "bucho", ou seja, estar no curso tem uma finalidade, e é essa finalidade, em última instância, que nos faz aceitar a leitura apressada conforme esse critério.
b) No centro de todos esses fenômenos está o amor, e seu oposto, a revolta. A vida não é fofinha: a natureza é selvagem, é cruel, e, por causa disso, entramos sempre numa posição de conflito, onde a revolta é pender pro natural, e o amor, pender pro sobrenatural, ou espiritual. Cada traço de revolta acumulado e não admitido é um fechamento para aspectos da verdade.
c) Existem 3 "tendências eternas" no coração humano: o primeiro é o "ceticismo", o segundo é o "gnosticismo", o terceiro é o "medo".
c1) O "ceticismo" vem de quando estamos estáveis na nossa posição e de repente somos bombardeados por outro sistema ou ordem, que nos coloca em dúvida sobre a verdade. Vivemos numa mesclagem cultural que deixa todo mundo desconfiado sobre a verdade, porque como o meu lado pode ser verdade se o outro tem uma vida boa, talvez melhor do que a minha, mas seguindo outras regras? Essa é a raiz do sentimento, que pode também nascer em outras variedades, mas, em geral, é a mesma posição psicológica da descrença numa Verdade total, apreensível, inteligível. Esse é um dos inimigos do coração.
c2) O segundo inimigo é o "gnosticismo". Há quem leia muito, mas não "entenda" tanto assim. É que uma coisa é a aquisição de memórias, outra é a ordenação das mesmas. O 1º se dá na leitura, o 2º no ato de pensar nos assuntos, mexer, mas, sobretudo, "coletar ideias", que é o processo em que, na medida em que gostamos de um assunto, vamos tendo sacadas/insights/ideias a respeito. Anotá-las (como Olavo, num diário filosófico, ou algo do tipo) acelera enormemente o aprendizado. Mas, a posição diante da qual se percebe a distância entre a memória e a ordem interior, e esse fator de "arbitrariedade" (as ideias podem vir, como podem não vir) gera o mito gnóstico: se não fosse essa "arbitrariedade", todos poderiam ser sábios, todos seriam santos, todos estaríamos num mundo perfeito. Tomada em si mesma, fora do contexto (estamos aqui para sermos julgados por Deus, não porque Ele não esteja conosco o tempo todo, mas porque nós o ofendemos) gera a raiz do sentimento gnóstico, de onde se deriva as tentativas esotéricas de "resolver" essa impotência humana perante Deus. Esse é outro inimigo do coração. Tem como expandir essa abertura pras ideias, mas a postura gnóstica, pelas experiências que tive até agora, fecha mais do que abre, pelo mesmo motivo do pecado original: "sereis como deuses".
c3) Por fim, o "medo" ou desconfiança. É o mais comum, e mesmo os profetas o passaram. Vocês devem saber que todo o problema do judaísmo e islamismo veio do medo de Abraão de Deus não cumprir sua promessa com relação ao filho prometido. O medo, que é uma constante de estar na vida, nos fecha para a aceitação da ordem divina, e tenta nos colocar na posição de deuses. Mesmo depois de tudo o que os profetas viveram, mesmo eles entraram em pânico em horas de tensão e, esquecendo-se de tudo o que já tinham presenciado, tentaram "tomar as rédeas à força". Se eles erraram, imagine nós. Esse é o 3º inimigo constante do coração.
c4) Eu chamo esses 3 de fatores "constantes", inevitáveis, e que é por causa deles que nunca teremos uma vida perfeita aqui. Nunca teve, não tem, e nunca terá. Todas as tentativas de resolver o problema são, no melhor dos casos, tentativas de permitir que mais pessoas que queriam desenvolver o coração possam ter acesso ao material para isso. No mais, são essas mesmas tentativas de "fazer a vida dar certo" que geram as tretas que fazem a roda do mundo girar (aqui não vou detalhar).
d) É também pelo fator do coração que se cria a ideia, comum no catolicismo, de que se Jesus viesse uma segunda vez ele novamente não seria reconhecido. Não seria mesmo. Eis por quê.
d1) De acordo com as revoltas que acumulamos, fechamos a potência de ver o outro tal como ele é (ver (a) e (a2)). Como assim: assim como na leitura do texto nós o vemos não por tudo aquilo que ele pode nos dizer, mas pelo que esperamos que ele diga, conforme nossos critérios pessoais/sentimentais, também com o outro. Ele deixa de ser, como Olavo tenta nos ensinar na contemplação amorosa, uma potência ilimitada de significado, e passa a ser um personagem do nosso teatro. A revolta, no centro, e suas 3 formas principais anulam em nós a capacidade de ver "além dos olhos do corpo".
d2) O natural, presente mesmo em culturas tribais, é vermos no outro a sua posição social antes do conteúdo do que ele fale. Como não conseguimos pensar "nas coisas mesmas", a mensagem que a pessoa fala é medida em relação à posição que ela ocupa. Na tribo, "minhas tatuagens [função social] são meu corpo". Isso é natural, e é por isso que Olavo fala no imbecil coletivo, caçoando ao falar com uma pessoa: "é, eu estudo filosofia há vários anos, escrevo filosofia, só penso filosofia, mas não sou filósofo", porque, afinal, não tinha diploma, isto é, a posição social.
d2b) Na falta da posição social aceitável, quem ouve a mensagem ou está "de coração aberto" (mais ou menos) ou não saberá encaixar a mensagem num contexto de significado. Ele nem sabe encaixar na unidade do sujeito, porque não aprendeu a fazer isso (fazer isso é aprender filosofia), nem saber encaixar no "tema em si", porque também não ouve a coisa em si, mas a expectativa que tem dela.
d3) E aí você entende "O medalhão" de Machado de Assis, entende Lima Barreto, e entende o próprio caso do Olavo. Cada pessoa que estava fechada pra ele só via um aspecto, conforme eles próprios: o psicanalista via "Olavo falando de cu", o formado em Letras via "política pela via da linguagem", o especialista em gnosticismo via gnose, o católico via anti-catolicismo, o evangélico via anti-evangelismo, a população comum, politizada, via uma ameaça política, e assim sucessivamente.
Por trás de todos têm a mesma situação: tomar apenas um aspecto, sem nem presumir que existe algo mais. E esse aspecto, por sua vez, tomado a partir de traços de "revolta" não integrada que estava em seus corações.
d4) Se com Olavo foi assim, quanto mais com um santo? E com o próprio Cristo? Cristo não foi reconhecido porque não veio com a "roupa" (a posição social) esperada pelos judeus. Porque é justamente essa a maneira com que o espírito é realmente julgado: é enxergar o grande no pequeno, é se abrir para o inesperado, que só pode ser feito se o sujeito ainda mantiver aquela ingenuidade infantil de se impressionar diante de tudo.
e) Como resolver o problema do coração?
Por trás de toda a literatura (e a técnica humana em geral), por trás de toda a filosofia, por trás de toda a prática religiosa, está o Coração. Tem um anime (ANIME? pois é) que diz e trata da frase-chave: "Sem Amor, é impossível entender."
e1) Uma pessoa apaixonada é o oposto de uma pessoa com ódio (tirando nos momentos de ciúme, negativos, falo dos positivos): ela enxerga no ser amado algo acima daquilo que ele é, mas que tem relação com a sua "forma" (ela não vai imaginar algo fora do minimamente verossímil, tipo que um amado negro seja branco de olhos azuis, ou que um baixinho seja um bodybuilder de 2 metros). Essa potência sentimental, a positiva, é uma amostra da possibilidade de enxergar uma unidade, ou enxergar além das aparências: é nessa "forma ideal" captada pelo sentimento que a pessoa aguarda do amado a sua melhora, dando-lhe a chance e o tempo para ele, que provavelmente também quer ser melhor (se estiver igualmente apaixonado) consiga subir. E vice-versa.
e2) Além do fator sentimental, tem o da vontade: decidir dar a chance. Ele por si não é suficiente. É como quem queira ler os livros de uma corrente que não gosta: mesmo com a vontade, o coração "já tomou sua decisão". Ainda assim, a vontade abre a possibilidade de acolhimento de uma possível inspiração/ideia que, por sua vez, abra seu sentimento para a coisa. Eu gosto de dizer que é um milagre em escala menor, porque houve de fato uma alteração cognitiva nesse processo, e não foi sua escolha, e foi "em nome do Bem". Pode vir, pode não vir, pode demorar a vir.
e3) Mas existe um outro recurso. Eu costumo dizer que são 3 níveis (não tem a ver com o 3 dos inimigos do coração): o social, o individual/moral, e o intelectivo.
e3b) Imagine Humildade. Uma coisa é você falar de humildade no sentido legado socialmente: "não se apegar às roupas e a sua aparência externa", "não se vestir exageradamente", "dar esmola" etc etc.. Outra coisa é você procurar saber o que é humildade porque decidiu (vontade) que quer ser humilde. Uma 3ª coisa é se abrir pra uma percepção de Ilimitado, que é a real fonte da humildade. Vou dar um outro exemplo pra ficar mais fácil.
e3c) Digamos que você quer ser sábio (ou qualquer coisa assim). I) Uma coisa é você ler livros (seja lá pro qual critério, os do dia, os olavettes, etc.). II) Outra é, com Olavo, montar um "mapa da ignorância" no sentido de pegar listas de livros e colocar numa planilha. III) Uma outra seria tomar "mapa da ignorância" como "princípio", ou seja, meditar ativamente que "além daquilo que eu sei tem muito mais do que eu não sei". Por fim, uma última seria de fato mexer em livros, por exemplo, ir na biblioteca semanalmente ou diariamente, vasculhar os livros, pegar as pilhas nos braços, mexer um por um, anotar ideias, pensar nesses livros, do que falam, como se conectam, o que ler, por que lê-los etc. etc.. Em suma, abrindo a sua curiosidade pra esses livros.
Até II não há propriamente um senso do que realmente existe, então no fundo não difere tanto assim do anterior (social). Em III, existe um esforço ativo de abrir o coração, mas é um esforço que não se sustenta, e que requer uma briga interna terrível (individual), porque a pessoa vai ficar oscilando entre se achar mais sábia do que as outras por fazer o exercício, se achar burra, por se achar sábia, e, enfim, pode fazer isso, mas não se meter efetivamente com livro nenhum. Mas em relação aos dois anteriores, já existe aqui um esforço da vontade, muito mais digno, e que abre o coração para bastante coisa. Mas no IV (intelectivo) não é nem sequer preciso pensar se a pessoa é sábia, se vai ser sábia, se é burra, se não é, porque o peso dos livros, a curiosidade despertada, e tudo o mais, simplesmente o colocam diante de algo IMENSAMENTE maior do que caiba no tempo. Quem só admire os livros provavelmente vai ficar com mais ódio do que admiração (e aí o efeito no coração), mas a curiosidade e a experiência com eles, a listagem, seja lá como for feita, mesmo ainda se for perdida, expande a alma positivamente para cima. Ainda que nunca termine nada, ainda que nunca seja sábio nem nada, o coração "se abriu" para essa "Imensidão", que é a mesma fonte das demais coisas (humildade, sabedoria, verdade, bondade etc. etc.).
Eu não conheço outra via.
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Sei que esse rascunho ainda tá mal organizado, mas na onda dos posts, deu vontade de mandar este. Nos últimos dias a bad veio com força, e aí de ontem pra hoje juntou algumas peças. Vou deixar o post, porque vai que é útil pra alguém, né.

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