Uma amostra do rompimento com o movimento olavette

Texto de 20/07/2022

Post polêmico.
Acho que encontrei uma "brecha" na visão do Olavo. ("AH MAS QUEM É VOC-"... calma)
É o seguinte.
Nos últimos anos eu vim conhecendo e investigando autores de diversas circunstâncias diferentes: professores universitários, de várias áreas, com e sem produção cultural (obras literárias, por exemplo), personagens que atuam só na cultura, em cidades grandes e pequenas etc.. E uma marca que tenho visto cada vez mais visível é a distância brutal que Olavo está de tudo isso. Olavo está falando do destino das almas e da "História Universal" (expressão errada, mas vai ela), enquanto que a gente está brincando de ser mimoso pros outros moradores da vila de Nhocunhé. Isso é real, assustadoramente real.
Como eu fiz a investigação por esse lado, minha posição é de pânico, porque existe, nas pessoas que conheci, um fundo de boa intenção no serviço que fazem. Independentemente do posicionamento político da pessoa. E eu acho que é aqui que Olavo ignorou, mas não por acaso, e não sem justificativa.
*
Eu dei uma leve surtada esses dias. Meus estudos até agora se voltavam praticamente para tentar tirar proveito do que já fora publicado justamente por causa dessa impressão desse fundo de boa intenção (além da possibilidade de uso em geral). Só que depois de uma última conversa com um escritor neste fim de semana, junto a uns amigos que me acompanharam, eu tive como que a gota d'água.
Junto dessa conversa eu fui lembrando de várias outras que vim tendo ao longo dos tempos, mas essas lembranças foram colocadas lado a lado com uma outra sucessão de lembranças de pessoas que acompanhei que sofriam justamente por não terem ninguém que lhes desse orientação. Essa mesma orientação que deveria vir da cultura, cuja situação real estava totalmente ignorada justamente por quem a faz.
"70.000 homicídios por ano!"
"50% de analfabetos funcionais nas universidades brasileiras!"
Essas frases são ilustrações desse senso de preocupação. Eu, de minha parte, não me preocupo com nenhum dos dois, porque não os vejo concretamente na minha vivência. Mas eu vi, vivi, sofri junto, por exemplo, com inúmeras pessoas que não tiveram absolutamente nenhum senso de orientação. São essas pessoas que compõem os mgtow, o feminismo, as propostas totalitárias da sociedade, na esperança, muitas vezes, de achar esse senso de orientação que não encontram em outro lugar.
*
Eu sei que Olavo se preocupa com esse lado, e sei que não se preocupa com o outro: ele sumariza numa fórmula que lembro do imbecil coletivo I, que é algo como "quando perguntam se fazem isso por maldade ou por burrice, gosto de dizer (vou citar de memória) que existe a responsabilidade que precisariam assumir perante a função, e que não assumi-la é maldade, independentemente da burrice" etc..
Mas quando você pega as duas metades da laranja, a coisa é assustadora. Pela 1ª vez eu vi que a vida da gente parece mais com uma sucessão de mal-entendidos. De um lado tem os intelectuais, completamente alienados, de outro, a população que precisa de orientação e não recebe nenhuma.
*
Em resumo, eu entendi por que Olavo xinga. Eu sabia para quê: era para quebrar o orgulho do sujeito e deixá-lo num estado em que fosse mais provável que viesse a se refazer interiormente. Mas o por quê... nessa "crise" que me deu esses dias deu pra entender. É vendo essas situações de negligência que vem o direito de xingar os caras. Porque a cultura é um espaço que poderia estar sendo ocupado por outras pessoas, quiçá mais sinceras. Mas não, está ocupada por esses que não sabem nem o quadro socio-histórico em que estão.
Tentei ficar calmo esses dias, porque minha reação natural seria começar a xingar todo mundo mesmo. Olavo não estava errado. Mais ainda, de todas as justificações que eu tento fazer pros demais, a dele é obviamente a mais justa.
Pros demais, eu tento amenizar assim:
I) eu não sei como Olavo atingiu essas ideais universais, mas elas me parecem ser quase um milagre. Aqui no meu estado (RN) o maior intelectual que já tivemos até hoje só chegou até o ponto de enxergar o presente como repetição do passado, mas a ideia de "perante a eternidade" é algo que não existiu nem nele, que é nossa maior referência, que dirá dos demais.
II) Por outro lado, eu sei - e aí demora pra justificar - que boa parte do que nos fecha pra essa universalidade são nossos pecados. Quanto escritor que só escreve pra se achar lindo!, quanto acadêmico cuja carreira está colocada em cima de um ataque aos pais (o sujeito não foi aceito pelos pais e aí ataca aquilo que os pais representam sob a forma de artigos e teses)! Quanto serviço desperdiçado nesta vida!
E não obstante, ainda que eu tenha visto alguns que tentam ajudar pessoas, gente de bem, mas que justificativa têm eles quando se olha pro outro lado da laranja e se percebe a desgraça monstruosa da sua negligência?
*
Tem muita coisa pra ser feita, e ela começa por tentar desvendar a sua própria cultura: a sua, adquirida, e a do seu local, entendendo local não só seu lugar físico, mas os lugares em que você frequentou (cultura nerd? otaku? geek?)
É muito serviço, e não me parece que estejamos bem direcionados nesse aspecto. Enquanto isso, as desgraças continuam e só tenderão a piorar. Deve ter gente má, realmente má, no meio, na esquerda etc., mas o mais que eu vi e vejo todos os dias em todos os espaços e idades é gente desorientada pedindo orientação e desorientando. Essa é a nossa vida.
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Gelson Silva e outras 20 pessoas
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